Abrir os olhos era como nascer de novo. Ver todo mundo ao meu redor me olhando curiosamente e chorando era desesperador. Aquele quarto cheirando a hospital, aquela cama reclinada, médicos e enfermeiros me olhando curiosos. E aquele bipe assustador do monitor cardíaco ao meu lado me dava calafrios.O que eu estava fazendo ali? Quanto tempo eu havia perdido? O que aconteceu?
Meu corpo todo doia, meus olhos estavam pesados e minha cabeça parecia querer explodir a qualquer momento. A sensação de voltar de um coma não era das melhores e o mais desesperador era estar perdida no tempo e no espaço, tentar se lembrar do que aconteceu e tudo que a memória conseguia recuperar era um vazio. Deus do céu, que angústia!E meu primeiro diálogo pós-coma foi com meu médico:
- Onde estou? - perguntei aflita, mas retoricamente pois tinha plena consciência de que aquilo era um quarto de hospital e já podia imaginar o tamanho da catástrofe para que eu estivesse ali.
- Aqui é o hospital Nossa Senhora das Graças, querida. Este é o seu quarto.- Doutor Rafael era um jovem médico, bonito, gentil e tímido. Alto e moreno. Sorriso largo, olhos pretos e fala mansa. Tinha por volta de 31 anos.
-Hum. E o que aconteceu comigo? Como vim parar aqui? - Eu queria respostas e eles também, mas eles queriam que eu respondesse outras coisas. Estava desesperada para saber o que aconteceu.
- Calma, querida. - e olhando para meus pais, continuou - é um bom sinal essa inquietação dela. Sinal de que se lembra de quem é e que esteve "fora do ar" esse tempo todo. - E voltando-se para mim de novo, prosseguiu - Lembra-se do seu nome, meu bem?
-Natasha Albuquerque De Angelis. - Ele riu.
- Muito bem, querida. Agora diga-me quantos dedos tenho aqui? - E mostrou-me o número dois feito com o anelar e o indicador.
- Aí nas suas mãos o senhor tem dez dedos, mas os que está me mostrando são apenas dois. - Todos riram e minha mãe chorava tanto que parecia estar no meu funeral e não num "despertar do coma da filha mais velha".
-Muito bem, senhorita! Agora, com o tempo, as sessões de fisioterapia e a ajuda da T.O. você voltará ao normal rapidinho. Mas diga-me uma coisa, e as pernas?
-O que tem elas, doutor? Vamos ter de tirá-las? Não conseguiu salvá-las? - Ele riu e continuou:
-Acalme-se, querida. Quero saber se sente suas pernas. Consegue mexê-las? - Naquele momento um desespero tomou conta de mim. E se não conseguisse? Ficar paraplégica não me parecia uma coisa que eu aceitaria facilmente, ainda mais gostando de festas e de me divertir como eu sempre gostei. O medo era tamanho que logo um gelo subiu pelo meu estômago, vindo a se transformar em um nó que apertava minha garganta. Um silêncio tomou conta do quarto e os rostos felizes agora pareciam tensos e partilhando do mesmo medo que eu.
- E então, querida? ... - Criei coragem e vi que conseguia mexê-las. Foi um grande alívio.
- Sim, posso mexer as pernas! Graças a Deus!
- Querida, agora terá de ter pasciência porque começará a reaprender tudo o que já sabia. E aos poucos a memória irá voltando. - E voltando-se para os demais, disse - Deixemos que ela descanse porque logo voltará a ficar inconsciente. Não se assustem porque é perfeitamente normal. Um paciente camatoso, nos primeiros dias, vai permanecendo acordado gradativamente. Vamos sair.
Então fiquei sozinha e me esforçava para lembrar o que aconteceu para que eu estivesse ali, mas nada fazia sentido. Sabia quem eram meus pais porque eram meus pais, mas não conseguia lembrar de nada antes daquele momento. Sabia que aquele garoto no quarto era meu irmão mais novo, mas não me lembrava sequer de um momento com ele, nenhuma brincadeira ou mesmo uma briga. Comecei a ficar aflita e não me lembro de mais nada depois disso até o dia seguinte.
-Hum. E o que aconteceu comigo? Como vim parar aqui? - Eu queria respostas e eles também, mas eles queriam que eu respondesse outras coisas. Estava desesperada para saber o que aconteceu.
- Calma, querida. - e olhando para meus pais, continuou - é um bom sinal essa inquietação dela. Sinal de que se lembra de quem é e que esteve "fora do ar" esse tempo todo. - E voltando-se para mim de novo, prosseguiu - Lembra-se do seu nome, meu bem?
-Natasha Albuquerque De Angelis. - Ele riu.
- Muito bem, querida. Agora diga-me quantos dedos tenho aqui? - E mostrou-me o número dois feito com o anelar e o indicador.
- Aí nas suas mãos o senhor tem dez dedos, mas os que está me mostrando são apenas dois. - Todos riram e minha mãe chorava tanto que parecia estar no meu funeral e não num "despertar do coma da filha mais velha".
-Muito bem, senhorita! Agora, com o tempo, as sessões de fisioterapia e a ajuda da T.O. você voltará ao normal rapidinho. Mas diga-me uma coisa, e as pernas?
-O que tem elas, doutor? Vamos ter de tirá-las? Não conseguiu salvá-las? - Ele riu e continuou:
-Acalme-se, querida. Quero saber se sente suas pernas. Consegue mexê-las? - Naquele momento um desespero tomou conta de mim. E se não conseguisse? Ficar paraplégica não me parecia uma coisa que eu aceitaria facilmente, ainda mais gostando de festas e de me divertir como eu sempre gostei. O medo era tamanho que logo um gelo subiu pelo meu estômago, vindo a se transformar em um nó que apertava minha garganta. Um silêncio tomou conta do quarto e os rostos felizes agora pareciam tensos e partilhando do mesmo medo que eu.
- E então, querida? ... - Criei coragem e vi que conseguia mexê-las. Foi um grande alívio.
- Sim, posso mexer as pernas! Graças a Deus!
- Querida, agora terá de ter pasciência porque começará a reaprender tudo o que já sabia. E aos poucos a memória irá voltando. - E voltando-se para os demais, disse - Deixemos que ela descanse porque logo voltará a ficar inconsciente. Não se assustem porque é perfeitamente normal. Um paciente camatoso, nos primeiros dias, vai permanecendo acordado gradativamente. Vamos sair.
Então fiquei sozinha e me esforçava para lembrar o que aconteceu para que eu estivesse ali, mas nada fazia sentido. Sabia quem eram meus pais porque eram meus pais, mas não conseguia lembrar de nada antes daquele momento. Sabia que aquele garoto no quarto era meu irmão mais novo, mas não me lembrava sequer de um momento com ele, nenhuma brincadeira ou mesmo uma briga. Comecei a ficar aflita e não me lembro de mais nada depois disso até o dia seguinte.
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