-Bom dia! Como está hoje, meu anjinho?
Meu segundo dia pós-coma começava assim, com o bom dia entusiasmado e alegre da minha mãe. Mamãe era linda, tinha cabelos dourados e curtos na altura do final do pescoço. Rosto fino, era um pouco baixa e nem gorda nem magra. O corpo adequado para seu tamanho e quadril avantajado. Seus olhos eram castanhos e seu sorriso era um porto seguro. Seus pais, meu avós, eram muito ricos e sua família muito respeitada. Vovô era dono de uma grande exportadora de vinhos, negócio herdado por gerações da família Almeida Albuquerque.
-Bom dia, mãe. Estou melhor e você? - Eu ainda estava um pouco zonza e com dor de cabeça, mas meu corpo doía um pouco menos.
- Estou aqui, minha filha. - Juro! Naquele momento eu não consegui entender se essa afirmação de mamãe era um pesar ou um conforto para mim. Mas creio que tenha sido os dois.
- Hum. Você passou a noite aqui?
-Sim, filha. Mas não se preocupe, essa cama é bem confortável e eu já me acostumei. - Esse tipo de diálogo me fazia pensar quanto tempo eu fiquei "fora do ar", mas o esforço era inútil pois não conseguia me lembrar de nada.
O quarto em que acordei naquele dia era bem maior, mais caseiro e um pouco menos hospitalizado. Tinha dois leitos: um para o paciente com todos os adornos hospitalares; outro para o acompanhante, bem simples. Uma tevê no alto da parede num daqueles suportes, uma porta para o que parecia ser um banheiro e uma porta de saída. Na frente da minha cama havia uma espécie de prateleira onde havia vasos de flores, bexigas, ursinhos, pacotes de presente, cartas e caixas de bombom. E à minha esquerda tinha uma janela bem grande com o mundo todo lá fora.
Vendo todos aqueles presentes que me levaram, imaginei que estava ali há bastante tempo para que as pessoas além da minha família soubessem de tudo. Então comecei o questionário desenfreado dos porquês.
- Mãe, quanto tempo eu fiquei fora do ar?
- Nove semanas, Ash. Nove longas e infindáveis semanas. - "Ash" era meu apelido porque eu não gostava de ser chamada de Nat, visto que Nat era a abreviação para Natália também e na escola havia três delas na minha sala. Ficaria muito confuso ter mais uma Nat e ela nem ser Natália.
-Nossa, nove semanas é tempo demais! São dois meses. Mas o que exatamente me aconteceu, mãe? - Naquele momento ela arrumava as coisas de cima da prateleira e se virou para mim como se eu tivesse cometido um crime. Os olhos arregalados e a expressão assustada. Então respondeu gaguejando:
-Bom... é que você... tinha uma festa de formatura dos seus amigos e você foi. Na volta o carro que você estava voltando capotou, daí você sabe, né? Você bateu com a cabeça no painel do carro, mas graças a Deus estava de cinto e o pior não aconteceu. Só que houve uma lesão no seu cérebro por conta do impacto da pancada...
Naquele momento a voz da mamãe foi ficando cada vez mais longe enquanto uma cena se montava ao meu redor. O interior de um carro, vozes gritando e cantando, música alta, eu estava na frente ao lado do motorista. E uma voz falava: "Jamais vou esquecer o que fez por mim, Ash!". De repente eu voltei para a realidade com um grito da minha mãe:
-ASH! Responde pra mim, filha! Por Deus, o que houve?
-Não sei, mãe. Eu tive um sonho e eu estava dentro de um carro. Era noite e uma voz me disse que não ia esquecer o que eu fiz por ela. Daí acordei com seu grito.
-Que sonho, menina? Você tá aí sentada e me olhava fixamente. Como podia estar sonhando? - Fiquei muito confusa naquele momento porque eu tive aquele sonho e não estava inventando nada daquilo. Mas tinha certeza que mamãe também não estava brincando ao dizer que eu permaneci acordada, fiquei bastante assustada e confusa.
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